sera que não da para cair como um prédio velho gasto e mau feito? Engraçado como me sinto desabando lentamente mesmo a palavra envolvendo uma fragilidade inalcançável, uma explosão imediata… mas o que realmente eu enxergo é meu ser se dissipando aos poucos.. nao sei como consigo ser tão confusa.. usar fragilidade e explosão na mesma frase e tentar parecer legível, a verdade eu nunca quis ser ou parecer literal, a sensação de escrever é bem parecida com a de ficar nua perto de desconhecidos. e o que você ve quando me lê? um corpo desfigurado uma alma sem rumo uma mente medonha um descontrole total. cade as virgulas os pontos a exclamação a emoção? se estivessem aqui não seriam a minha verdade.
Acho que estou preparada para abandonar toda a ilusão que vivi durante esse ano, é uma sensação de absoluto alivio por ter tentado de todas as formas possíveis, por ter amado incondicionalmente ate que as esperanças se esgotassem, não há como expressar meu amadurecimento durante esse tempo, me doar ao ponto de esquecer de mim foi tão intenso que so existia NOS, eu não era ninguém sem você… Há algum tempo tenho recuperado o meu bom senso , os meus gostos literários a minha paixão por uma vida caseira minhas amizades meus apreços mais ocultos e por mais que tudo isso doa amargamente percebo que tudo o que você fez durante esse tempo foi me humilhar me agredir verbalmente e destruir o ser seguro que existia em mim, não o culpo, a culpa é minha por ter caído no seu joguinho sujo e barato, a culpa é de quem idealiza e vive de fantasias, é o meu lado criança que que ainda acredita em conta de fadas e príncipe encantado, não queria matar você querida criança mais o crescimento envolve dor , adeus vá brincar no reino encantado, a partir de agora so vale o que for real e passível de fazer sentido.
“Um dia olhou pela janela, imaginou como seria o seu vôo até o chão
Mas quando pensou na sujeira que ela causaria..
desistiu, foi ver televisão
Tinha que engravidar, criar, envelhercer, morrer… como todos esperavam
Tinha que renunciar, agradar, obedecer, vencer… como todos desejavam”
Jay Vaquer.
Escravizaram assim um pobre coração.
É necessário a nova abolição.
Pra trazer de volta a minha liberdade.
Para atravessar agosto é preciso, antes de tudo, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah! Escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.
Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos. Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos – ou precauções-úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade…Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.
Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu – sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.
Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas – coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.
Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco:.
Regras não servem pra mim. Não tenho vocação pra bailarina, tenho fobia de linha reta, tenho o corpo livre, o espírito solto, sou do mundo, das pessoas, das conquistas, das novidades, vou construindo fatos e lembranças nas esquinas. A vida que tem lá fora gritou e eu não ouvi. Agora me movo a passos curtos, ziguezagueando por entre mudas de flores recentes que querem ser botão. Eu quero ser flor: quero terra viva que se mova e me faça mover.”









